A música, em si, não é tão significativa para o nosso mundo interior, tão profundamente tocante, que possa valer como linguagem imediata do sentimento; Mas sua ligação ancestral com a poesia pôs tanto simbolismo no movimento rítmico, na intensidade ou fraqueza do tom, que hoje imaginamos que ela falhe diretamente ao nosso íntimo e que dele parta. A música dramática é possível apenas quando a arte sonora conquista o imenso domínio de meios simbólicos, com o lied, a ópera e centenas de tentativas de pintura tonal. A música absoluta é, ou forma em si, no estado cru da música, em que o ressoar medido e variamente acentuado já causa prazer, ou simbolismo das formas, que sem poesia já fala a compreensão, depois que as duas artes estiveram unidas numa longa evolução, e por fim a forma musical se entreteceu totalmente com fios de conceitos e sentimentos. Os homens que permaneceram atrasados no desenvolvimento da música podem sentir de maneira puramente formal a peça que os avançados entendem de modo inteiramente simbólico. Em si, música alguma é profunda ou significativa, ela não fala da vontade ou da coisa em si; Isso o intelecto só pode imaginar numa época que havia conquistado toda a esfera da vida interior para o simbolismo musical. Foi o próprio intelecto que introduziu tal significação no som: assim como pôs nas relações de linhas e massas da arquitetura um significado que é, em si, completamente estranho as leis mecânicas.
O que há de inocente na maldade. A maldade não tem por objetivo o sofrimento do outro em si, mas nosso próprio prazer, em forma do sentimento de vingança ou de uma mais forte excitação nervosa, por exemplo. Já um simples gracejo demonstra como é prazeroso exercitar nosso poder sobre o outro e chegar ao agradável sentimento da superioridade. Então o imoral consiste em ter prazer a partir do desprazer alheio? É diabólica a satisfação com o mal alheio. Na natureza obtemos prazer quebrando galhos, removendo pedras, lutando com animais selvagens, para nos tornarmos conscientes de nossa força. Saber que outro sofre por nosso intermédio tornaria imoral a mesma coisa pela qual normalmente não nos sentimos responsáveis? Se não o soubéssemos, contudo, também não teríamos prazer em nossa própria superioridade, que justamente só se pode dar a conhecer no sofrimento alheio, no gracejo, por exemplo. Em si mesmo o prazer não é bom nem mal; De onde viria a determinação de que, para ter prazer consigo, não se deveria suscitar o desprazer alheio? Unicamente do ponto de vista da utilidade, ou seja, considerando as conseqüências, o desprazer eventual, quando prejudicado o Estado que o representa leva a esperar punição e vingança: Apenas isso, originalmente, pode ter fornecido o fundamento para negar tais ações. Assim como a maldade não visa o sofrimento em si, também a compaixão não tem como objetivo o prazer do outro. Pois ela abriga no mínimo dois “Talvez muito menos” elemento de prazer pessoal, e é desta forma, fruição de si mesma: primeiro como prazer da emoção, a espécie de compaixão que há na tragédia, e depois, quando impele à ação, como o prazer da satisfação no exercício do poder.
Primeira postagem Fala Nietzsche! tirada do livro Humano, demasiado humano. Aprecieeeeem e good trip!
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